Quando a fé dispensa a ciência, o raio faz a auditoria

A Bíblia não diz que devemos nos deixar desprotegidos contra as forças da natureza

Eu tirei esta foto há poucas semanas, em frente à Igreja de San Nazaro e Celso, em Brescia, na Itália. Observe com atenção. No alto agora há um para-raios. Mas nem sempre foi assim. Em 1769, essa mesma igreja foi o palco de uma catástrofe tão grande que abalou toda a cidade, uma tragédia que poderia ter sido evitada por um simples ato de “aceitar a ciência!”

Cerca de dezessete anos depois que Benjamin Franklin inventou o para-raios, a Igreja de San Nazaro e Celso foi atingida por um raio. Dentro dela, estavam armazenadas toneladas de pólvora. A explosão que se seguiu destruiu grande parte de Brescia e matou cerca de três mil pessoas.

Antes da descoberta de Franklin, muitas igrejas, inclusive esta, acreditavam que as tempestades poderiam ser afastadas ao batizar e abençoar seus sinos, tocando-os para “espantar o trovão” como estava escrito em alguns sinos (“Fulgetra frango, tonitrua concutio, daemonia fugo.” = “Quebro os relâmpagos, abalo os trovões, expulso os demônios.”) Quanto mais alto o sino soava, mais forte seria a fé, ou assim acreditavam. Mas as tempestades continuavam vindo. Os sinos nunca impediram os raios.

O mais impressionante nessa história não é apenas a dimensão da tragédia, mas a contradição que a precedeu. Os líderes da igreja da época recusaram-se a instalar um para-raios, chamando-o de “ofensa a Deus”, um pecado contra a vontade divina. Diziam que, se o raio caísse, era porque o céu assim determinara.
Mas esses mesmos líderes não viam problema algum em armazenar pólvora, uma substância feita para matar, dentro de uma casa de oração, feita para proteger a vida. Rejeitaram um instrumento que poderia salvar vidas, enquanto aceitavam um que podia tirar vidas. Pode haver contradição maior?

Em nenhum lugar da Bíblia está escrito que devemos nos deixar desprotegidos contra as forças da natureza. Em parte alguma se condena o uso do conhecimento humano para preservar a vida. Pelo contrário, a sabedoria, a busca pelo entendimento, é exaltada nas Escrituras.

Mas quando a superstição substitui o discernimento, quando o medo se esconde atrás da máscara da fé, e quando aqueles que pregam a paz abrem espaço para os instrumentos de destruição, o resultado é inevitável: a tragédia.
Parece com o que vemos hoje, políticos que formam a “bancada da Bíblia”, aliados à “bancada da bala” e aos negacionistas da ciência. É a mesma mistura explosiva de fé distorcida, poder e ignorância que, séculos atrás, transformou uma igreja em ruínas e silêncio.

E aqui está a maior ironia de todas: hoje, a invenção de Franklin, outrora condenada como blasfêmia, está no topo de quase todas as igrejas do mundo. O mesmo princípio que foi chamado de “ato contra Deus” agora protege os templos que antes o rejeitaram.

O para-raios que agora coroa a Igreja de San Nazaro e Celso é mais do que um pedaço de metal, é um monumento à razão, à humildade e à reconciliação entre a fé e a ciência. Ele nos lembra que a ciência não é rebeldia contra Deus, é um de seus dons. A mesma fé que ora por segurança jamais deveria rejeitar os meios para garanti-la.

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