O problema do Brasil é… você

Mel Robbins, autora da teoria “Let Them”, apresentada no livro “Deixa pra lá”, escreve em uma das páginas iniciais: “A maioria das pessoas está dando o seu melhor para seguir em frente, pagar as contas, sustentar a família […] Estamos procurando maneiras simples de ser um pouquinho mais felizes e ter uma vida um pouquinho melhor.”
Impressiona como Robbins resumiu, em poucas palavras, os anseios do brasileiro. É isso mesmo. Queremos apenas um pouco de tranquilidade e previsibilidade para tocar a nossa vida.
Porém, isso é impossível no Brasil. Vejamos o que ocorreu somente na última semana!
Alcolumbre cancela a sabatina de Jorge Messias, Bolsonaro segue preso, Banco Master agora é assunto do Supremo Tribunal Federal (STF) – ou seja, ninguém vai saber mais nada desse caso –, Congresso aumenta emendas parlamentares para 13 bilhões, Lula se mete nas tretas de Trump e Maduro, PIBinho do Brasil cresce 0,1%, Gilmar Mendes impede que você e eu possamos pedir o impeachment dele.
Enquanto isso, barato, no Brasil, somente um pacote de sal.
Mas vamos falar desta última decisão do ministro do STF, Gilmar Mendes. Disse ele, justificando sua decisão monocrática – aquela na qual um só ministro, que não tem mandato, decide, com sua caneta BIC, o rumo de um país inteiro: “Se trata de aplicar a Constituição. E é isso o que estamos fazendo ou entendemos que estamos fazendo. Com tantos pedidos de impeachment, com as pessoas anunciando que farão campanhas eleitorais para obter maioria no Senado, dois terços do Senado, para fazer o impeachment”.
Vamos por partes. Primeiro, o que diz a Constituição Federal do Brasil, no artigo 52, inciso II? “Compete privativamente ao Senado Federal: […] processar e julgar os Ministros do Supremo Tribunal Federal […] nos crimes de responsabilidade”.
Fico me perguntando a respeito de qual Constituição Gilmar Mendes está falando. Talvez a da Venezuela.
Segundo, o ministro está preocupado com o resultado das eleições. Como quem elege os parlamentares somos você e eu, o ministro diz que o principal problema para prováveis impeachments de ministros do STF é você e eu. Por isso que nós, meros mortais, não podemos mais apresentar pedidos de impeachment contra as suas deuses-excelências.
Não bastasse isso, o ministro, também do STF, Flávio Dino, defendeu a decisão do seu colega, afirmando: “Nenhum país do mundo, nem o Brasil, assistiu em tão curto espaço de tempo, 81 pedidos de impeachment.” Dino está dizendo que somos incapazes de entender a natureza da sua atividade jurídica, e por isso ou apresentamos ou elegemos políticos que apresentam pedidos de impeachment contra as excelências de toga.
Como bom nordestino, Dino está nos chamando de desorientados, abestalhados.
Mas, esclarecendo as paradas, nenhum país do mundo reúne essa quantidade de pedidos de impeachment porque em nenhuma outra nação civilizada – republicana, em que os pesos e contrapesos da democracia atuam firmemente e cujos poderes estão pacificamente harmonizados – os ministros do STF possuem tanta evidência como aqui.
Os caras vivem de dar entrevista, investigam todo mundo de todo jeito, mudam as regras do jogo, legislam em causa própria e obrigam executivo e legislativo a se renderem às suas canetadas.
Finalmente, caro leitor, a decisão do ministro Gilmar Mendes, amparada pelos demais ministros, diz basicamente: não queremos políticos diferentes dos que temos e nem ser importunados, e você, eleitor, é o culpado se este status quo mudar.
É fácil concluir que, para o STF, o problema do Brasil somos você e eu.

