O país da conveniência e do revanchismo

No Brasil as políticas públicas não são debatidas com base no interesse nacional e os atores políticos não pisam no chão

“Nas favelas, no Senado, sujeira pra todo lado. Ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação”. 

Veja, caro leitor, como Renato Russo conseguiu registrar, em 1987, em poucos versos, um sentimento que atravessa gerações. Não poderia haver um paradoxo mais sem sentido do que o que foi exposto na música: “ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro [no sucesso] da nação”. O músico tinha razão ao escrever esta estrofe, visto que já havia percebido o quanto o brasileiro é otimista.

Todos nós acreditamos no País do Futuro. Todavia, não há como uma nação ter sucesso se as leis que regem a disciplina são ignoradas diariamente. 

Perceba as nuances! É interessante como virou moda todo mundo dizer que está “defendendo a democracia” – O STF, o presidente Lula, as Casas Legislativas. Com base nesta argumentação, o STF é vítima, polícia, procurador, acusador e juiz ao mesmo tempo. O presidente da República, incapaz de dialogar com o Congresso, se utiliza dos seus deputados no STF (vai emplacar mais um agora) para conseguir o que quer. E o Congresso segue aprovando pautas bombas na economia para prejudicar o Governo. Mas a conta quem paga somos nós.

Enquanto os atores políticos tentam nos convencer de que estão defendendo a democracia (propositalmente, é claro), nós, brasileiros normais, insistimos em brigar com a família, com os amigos, com os colegas de trabalho, discutindo se o Estado Democrático de Direito está em risco ou não.

Nisso, não percebemos que o Orçamento da União ainda não foi aprovado, que o STF continua com um orçamento bilionário para funcionar (os caras têm mordomo, já pensou), a COP-30 peleja para chegar a um acordo que, no final das contas, não vai servir de nada, Bolsonaro mete um ferro de solda na tornozeleira eletrônica, o IPCA, que mede a inflação, já vai acumulando quase 5% (pode parecer pouco, mas não é).

O Senado, com raivinha do presidente Lula, aprovou um Projeto de Lei (PL) que beneficia os agentes comunitários de saúde (ACS), efetivando-os e concedendo-lhes aposentadoria com tempo de serviço reduzido. Este PL aumenta o rombo das contas públicas em R$ 25 bilhões. Veja que não foi um PL aprovado por causa do interesse nacional, mas por revanchismo.

E não ficou por aí. O PL efetiva profissionais no serviço público sem que estes tenham sido submetidos a concurso. Se você acha isso normal, pense nas pessoas que passam uma vida inteira se dedicando ao estudo, investindo dinheiro, tempo, noites em claro, sacrificando a família para conseguir a tão sonhada vaga no serviço público sem precisar se vender aos caprichos eleitoreiros dos políticos locais.

Enfim, vivemos no país da conveniência e do revanchismo, onde as políticas públicas não são debatidas com base no interesse nacional e os atores políticos não pisam no chão. 

Se você ainda não conseguiu captar o fio da meada, lembre-se que não existe almoço de graça. Nós, contribuintes, pagamos por tudo nesse país – seja a aposentadorias dos ACS, as regalias do STF, os gastos milionários da COP-30 e a tornozeleira eletrônica danificada de Bolsonaro. Que país é esse?

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