Mais um boleto para pagarmos: o dos Correios

O caos na estatal brasileira é o reflexo do que a má gestão política é capaz de fazer

Como você possivelmente deve ter acompanhado, os Correios acumularam – somente no primeiro semestre de 2025 – uma dívida de mais de R$ 4 bilhões. Dentre as soluções propostas para resolver essa incômoda situação, duas ganharam destaque na mídia: a primeira, a demissão do então presidente dos Correios, o advogado Fabiano Silva dos Santos; e a segunda, a concessão de um empréstimo de R$ 20 bilhões pelos bancos públicos para socorrer a estatal.

“Ah… privatiza logo”, alguns dizem. “É culpa de Bolsonaro”, dizem outros. “Os Correios dão lucro. Esse negócio de rombo é tudo mentira”, afirmam terceiros. “Estão querendo favorecer as multinacionais”, dizem os quartos. 

“Nós é quem vamos pagar essa conta”, digo eu para mim mesmo, coçando os bolsos.

Não vou me atrever a tecer uma opinião a respeito da operacionalidade dos Correios porque não entendo nada de Correios. Todavia, enquanto cidadão, é a mim lícito refletir a respeito de como essa crise nos afeta.

Gostaria, inicialmente, de diferenciar mil, milhão e bilhão. Antes de se demitir do cargo, o presidente dos Correios ganhava R$ 53.286,39 brutos. Em média, líquidos, ele supostamente receberia algo em torno de R$ 38.823,71. Isso equivale a R$ 1.294,00 por dia de trabalho. 

Ou seja, para Fabiano dos Santos arrecadar, livre de impostos, R$ 1.294,00 em sua conta, ele precisaria trabalhar apenas um dia. (Aquilo que um trabalhador ganha em um mês, ele arrecada em um dia).

Para arrecadar um milhão (sem gastar nada desse dinheiro), dos Santos precisaria trabalhar 772 dias, ou dois anos e dois meses. Para arrecadar um bilhão, o ex-presidente da estatal teria de trabalhar 772.797 dias, ou 2.117 anos – isso mesmo, teria de começar a juntar dinheiro desde a ascensão do Império Romano.

Até pensei em fazer esta comparação utilizando como exemplo o salário mínimo, mas o resultado seria assustadoramente humilhante. 

Portanto, quando você escutar a palavra “bilhão” nos noticiários, pense – literalmente – em uma eternidade. 

Mas, a dívida precisa ser paga. Por isso o tal empréstimo de R$ 20 bilhões. “Olha o bilhão de novo aí gente”. Pode tocar o samba de Martinho da Vila, comendo pizza, porque é assim que tudo acaba no Brasil.

“Ah, e o que é que eu tenho a ver com isso?”, você pode estar se perguntando. Bem, o empréstimo de 20 bi será concedido mediante garantias do Tesouro Nacional. Isto é: se os Correios não pagarem, quem vai pagar é o Governo. E quem vai pagar ao Governo somos você e eu. Como já vi este filme diversas vezes, posso dar o spoiler do final: nós vamos pagar a dívida dos Correios.

O problema das estatais no Brasil é que elas são geridas por pessoas incapacitadas para a função, geralmente mediante cargos comissionados (indicação) e voltadas para servir a interesses de grupos políticos. 

Dificilmente você verá um presidente de estatal que é servidor de carreira, imune aos caprichos políticos e plenamente comprometido com uma gestão de qualidade e eficiente. Lá fora, em outros países, até dá certo. Aqui, não é bem assim. O que temos visto, até então, é um país condenado a pagar eternamente pelo custo da gestão ineficaz dessas mega companhias governamentais. 

Em caso de dívida, o seu nome vai para o Serasa. Já o nome do ex-presidente dos Correios, este continua politicamente blindado. O caos nos Correios é o reflexo do que a má gestão política é capaz de fazer.

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