E o país segue estagnado

“O Brasil não é para amadores”, já diziam Tom Jobim, ou Nelson Rodrigues (não se sabe ao certo quem cunhou essa frase). Diz a tradição popular que a frase surgiu enquanto se tentava explicar a estrangeiros como são complexas as relações sociais brasileiras. O amador é a pessoa que não é profissional, que possui pouco entendimento das coisas ou se guia pelo conhecimento empírico. Logo, o autor almejava esclarecer que o Brasil não é para pessoas simples, ou para pessoas desinformadas, ou para aquelas que apenas querem viver suas vidas sem muito “muído”. Em outras palavras, o Brasil não é para os brasileiros.
O presidente Lula, de forma muito bem articulada e inteligente, lançou uma campanha intitulada “O Brasil é dos Brasileiros” em resposta às ações descabidas e desesperadas dos Bolsonaro para forçar o país a aprovar a anistia do ex-presidente e dos baderneiros do 08 de Janeiro. As ações do “Zero-três” nos Estados Unidos, conspirando contra a República brasileira, proporcionaram ao presidente Lula a chance perfeita para aumentar sua popularidade e lançar um mote de campanha (eleitoral — não nos enganemos quanto a isso) o qual ele chamou de “Em defesa dos interesses nacionais”. Contudo, na prática, tanto as ações de Eduardo Bolsonaro, quanto as de Lula da Silva, pouco têm a ver com os interesses nacionais ou com a promoção da soberania deste querido país.
O povo brasileiro nada tem a ver com os desarranjos políticos da nação. Quando digo que nada tem a ver é no sentido de que nós não precisamos daquilo que Suas Excelências, os políticos, acham que nós precisamos. Quando falo de políticos, refiro-me aos do Executivo, Legislativo e (infelizmente) Judiciário. Tais seres, a quem carinhosamente chamo de extraterrestres (porque não pisam na mesma terra que nós), querem estar a todo tempo no centro dos holofotes, sendo o foco dos noticiários e chamando a atenção para os seus atos justiceiros.
Todos os dias há uma novidade. Nem mesmo há mais a possibilidade de se dizer “sextou” neste país. Na calada da noite, da sexta-feira, é possível que sejamos surpreendidos por uma votação obscura do Congresso, uma decisão faraônica de Xandão ou uma medida “pró-Brasil” (e menos dinheiro no bolso do cidadão) proferida em Diário Oficial da União.Resumindo: as lutas dos gladiadores na arena do Coliseu político brasileiro somente chamam a atenção para os protagonistas, mas em nada afeta a vida do público que, perplexo, assiste às cenas sanguinolentas de masculinidade verborrágica.
Anistiar Bolsonaro vai mudar o quê na vida do brasileiro? E quanto às falas da primeira dama Janja: têm alguma relevância prática? E o fato de o presidente da Câmara ser paraibano, de Patos (minha terra natal), melhora a minha vida? E Xandão, com seu inquérito infinito, contribui para as nossas condições de existência? Ir às ruas protestar a favor de não sei o que lá vai diminuir um boleto do meu orçamento? Lula e suas falas previsíveis da década de 80, estão preocupados se o pai de família vai conseguir fazer a feira do mês?
O mais triste em tudo isso é que as bases ideológicas inflamam as redes sociais com discursos mentirosos, induzindo as pessoas simples (nós, amadores) a se envolverem em brigas que não são suas e provocando constantes atentados à paz psicológica da sociedade, que apenas deseja viver dias normais. Não se permita, amado brasileiro, trafegar por estas avenidas da discórdia onde a ganância, a loucura, o ódio e a indiferença imperam.
Apartemo-nos deste debate polarizado, saiamos do meio das pessoas que acreditam que a solução do Brasil está em Lula ou em Bolsonaro. Permita-se experimentar uma nova alternativa política, tentar — ou ousar — vislumbrar uma terceira ou quarta via política, porque as que estão triunfando hoje no cenário nacional não estão nem aí para o Brasil.

