A nação das discussões inócuas

O Brasil tem repercutido, nos últimos dias, o alcance e o impacto do vídeo “adultização” publicado pelo youtuber Felca, o Felipe Bressanim Pereira, como resultado de meses de sua particular investigação a respeito do funcionamento do algoritmo das redes sociais quando provocado a buscar conteúdos sobre exploração sexual infantil.
Os resultados foram impressionantes, lamentáveis, apontando falhas das Big Techs no combate ao abuso sexual infantil em seus domínios e trazendo à tona uma triste realidade à qual as crianças estão expostas. O vídeo publicado por Felca “viralizou” a ponto de merecer uma reportagem exclusiva no Jornal Nacional, na edição de 11 de agosto de 2025.
Vamos ao que interessa! Pergunta-se: há quanto tempo esses aliciamentos ocorrem publicamente nas redes sociais? Uma coisa é discutir como identificar, investigar e denunciar abusos sexuais que ocorrem à margem dos olhos da sociedade civil. Outra coisa é ser negligente com os abusos sexuais monetizados, ou seja, aqueles praticados para serem divulgados nas redes sociais e gerarem receita a partir da ampla divulgação desses conteúdos.
O Brasil há muito tempo já poderia ter uma legislação avançada e um sistema de monitoramento e fiscalização sensível à publicação de conteúdos como os que Felca denunciou. Afinal, a IA (inteligência artifical) não existe somente para produzir fotos em formato de anime ou fornecer respostas melhores e mais completas do que uma googlada. Essa maravilhosa tecnologia existe, também, para cruzar dados, refinar buscas, identificar o não identificável e encontrar os perversos produtores e compartilhadores de conteúdos criminosos.
Quem dera fosse esta a preocupação dos agentes políticos brasileiros. Mas, não. De forma alguma. A preocupação dessa gente é diariamente sequestrar nossa atenção para os seus “pitis” egocêntricos com vistas a angariar mais um mandato.
Somos diariamente sequestrados em meio às pautas inócuas a respeito da prisão ou anistia de Bolsonaro. Estamos perplexos contemplando como o STF deixou de cumprir seu papel constitucional para passar a tomar decisões monocráticas e políticas quase que diariamente.
Estamos boquiabertos vendo um presidente da Câmara – sem a devida estatura para o cargo – sendo esculachado de sua própria cadeira na mesa diretora. Estamos coçando os bolsos, emudecidos, assistindo ao presidente da República discursando em palanques eleitorais e crendo – segundo as concepções do seu Fantástico Mundo de Bob – que sairá vitorioso na guerra comercial contra a maior potência econômica do mundo.
Enquanto isso, na Procrastilândia, cujo nome popular é Brasília, o mundo gira em torno de outra estrela que não o Sol. Lá, nesta terra da fantasia, os personagens, dotados de orçamentos milionários – verba de gabinete, emenda parlamentar, auxílio isso, auxílio aquilo, auxílio ao auxílio – ocupam suas atenções em manter-nos confiscados nas disputas ideológicas, nesta eterna polarização política, neste bombardeio de argumentos falaciosos e mentirosos a respeito do que é melhor para o Brasil, como se um ou outro lado tivesse em mãos a receita mágica do progresso.
Felca fez o que um bom político, em uma nação decente, faria: trouxe à tona um debate relevante e que realmente afeta a vida do brasileiro pagador de boleto. As imprestáveis Excelências políticas apresentaram, somente na segunda-feira 11 de agosto, doze projetos de regulamentação das redes. Novidade? Nada. Já existiam adormecidos 20 projetos de combate aos abusos nas redes. E por que estavam adormecidos? Porque enquanto isso, na Procrastilândia, cujo nome popular é Brasília, o mundo gira em torno de outra estrela que não o Sol. Lá, nesta terra da fantasia… Enfim, é só reler o penúltimo parágrafo.

