É bom que tenhamos memória – parte 1

O Brasil está parado. A elevada taxa de juros sufoca o planejamento orçamentário das famílias, a inflação dos alimentos consome os parcos salários, o preço dos combustíveis resiste nas alturas, nossas ruas possuem mais buracos que asfalto, o saneamento básico ainda não alcançou o status de “básico”, o PCC expande sua influência em diversos setores, projetos de combate a criminalidade são desmantelados, energia elétrica encarece, o fantasma do “tarifaço trumpiniano” assombrando a economia… Willian Bonner deixa a bancada do JN… e os nossos políticos, alheios à realidade, ainda pensam que o maior problema do Brasil reside na anistia de Bolsonaro.
Nesta semana, teve início o tão aguardado julgamento do ex-presidente, acusado de atentar contra o Estado Democrático de Direito ao elaborar mecanismos para o impedimento da posse do atual presidente, Lula da Silva. A despeito das possíveis irregularidades processuais, dos arroubos autoritários do STF e da desproporção das penas para aqueles que “apenas” depredaram patrimônio público, Bolsonaro não pode, de forma alguma, ser considerado uma vítima do establishment político, um preso político ou até mesmo um perseguido.
No campo da política, Bolsonaro foi eleito na esteira de um movimento popular que já estava exausto da estagnação econômica resultante das decisões equivocadas dos governos Lula-Dilma e dos escândalos de corrupção petistas. Soube surfar a onda e, sem tempo de televisão ou recursos financeiros, utilizou-se das mídias sociais para conduzir sua própria campanha. Promoveu-se, finalmente, como um outsider – o que, de fato, nunca foi.
Jair “Messias” não foi eleito como a solução para os nossos problemas ou como o melhor candidato à presidência, mas como um voto de protesto contra tudo e todos que ao longo de anos iludiram as ingênuas perspectivas do povo de sonhar com um país do futuro. Sem alternativas políticas viáveis, era ele ou ele. Culpar o povo por esta escolha é o mesmo que culpar uma criança por ter sido vítima de violência sexual.
Diferentemente da sinuca de bico que estava posta diante do povo, Bolsonaro teve oportunidades para decidir sobre o que era melhor para o país. Suas promessas de campanha eram: Menos Brasília, mais Brasil: governar sem viés ideológico e restaurar a diplomacia brasileira.
Prometeu também tornar o Nordeste um pólo tecnológico à semelhança de Israel; combater rigidamente o crime organizado e a corrupção; conceder amplos poderes para seus ministros e nomear somente aqueles com perfil técnico; renunciar o fisiologismo partidário do Centrão; pacificar o país; combater a filosofia do “nós-contra-eles”; privatizar e extinguir estatais; promover a reforma administrativa, tributária e previdenciária ampla e justa; governar sem pensar em reeleição.
Pois bem. Não há a necessidade de discutir ponto a ponto cada uma dentre as suas principais propostas para concluir que o ex-presidente cometeu estelionato eleitoral.
Bolsonaro pode ser chamado de um caso a ser estudado. Inábil para promover um diálogo com o Congresso, terceirizou suas pautas ao então presidente da câmara, Arthur Lira, aprovando o que viria a ser conhecido como Orçamento Secreto. Cedeu voluntariamente seus amplos poderes para que o Congresso decidisse sobre o orçamento da União em troca de apoio às suas pautas.
Bolsonaro foi capaz de passar quatro anos questionando a legitimidade de uma eleição que ele próprio venceu. Em entrevista recente à CNN, declarou que ninguém estava à altura dele para governar o Brasil, exceto seus filhos ou sua esposa. Que não nos enganemos com os seus falatórios oposicionistas. Ele é o mesmo antes, hoje e sempre, e seu interesse pessoal sempre estará acima dos interesses da nação.
O ex-presidente perdeu as eleições de 2022 não porque Lula era melhor, mas porque foi suficientemente incompetente para a estatura do cargo. Perdeu para si próprio e agora busca uma chance de redenção, segundo os moldes hilários do que se sucedeu a Trump. Que seu julgamento ocorra da forma mais transparente e justa possível deve ser o desejo de todo cidadão que ama a justiça e aborrece a corrupção. Porém, para o bem do Brasil, que suas pretensões políticas sejam sepultadas de uma vez.

