A república carnavalesca

Diz o ditado popular que, no Brasil, tudo acaba em pizza ou carnaval. Considerando o feriado carnavalesco e as peripécias que estão acontecendo em Brasília, não há melhor momento para escrever este texto, cuja oportunidade há tempos tenho aguardado.
O Brasil é uma República. E o que significa isso? O editorial do jornal O Estado de São Paulo, na edição de 20 de outubro de 2019, explica de uma forma bem simples: “Todos são iguais perante a lei […] Há aqui dois princípios basilares, dos quais decorrem todas as características de um regime republicano. A República baseia-se na fundamental igualdade de todos os cidadãos e, precisamente por isso, todos estão igualmente submetidos à lei. O segundo princípio, intimamente ligado ao da igualdade, é o de que a República é o regime da lei. O exercício do poder na República é sempre uma decorrência da lei”.
Falar em República significa que, perante a lei, o presidente, os deputados e os ministros do STF são iguais a você e a mim, salvaguardadas as devidas proporções.
Por isso, é incoerente falar em República Popular da China, República Bolivariana da Venezuela ou República de Cuba, nomes oficiais desses países. Engraçado mesmo é o nome oficial da Coreia do Norte: República Popular Democrática da Coreia.
Mas a cultura brasileira tem um entusiasmo por essas coisas de liderança suprema. Veja, por exemplo, o nome de algumas das escolas de samba: Império de Casa Verde, Imperatriz da Pauliceia, Imperador do Ipiranga, Imperatriz Leopoldinense, Império Serrano. E quanto às cores da bandeira do Brasil? O verde representa a Casa de Bragança (D. Pedro I), e o amarelo, a Casa de Habsburgo (D. Leopoldina), herdados da bandeira imperial.
Mas por que falar dessas coisas, e o que isso tem a ver com os nossos boletos?
Em tempos turbulentos como os que estamos vivendo — cuja crise brasileira não é econômica, previdenciária ou de responsabilidade dos governantes, mas sim uma crise moral no Supremo Tribunal Federal —, é bom que relembremos conceitos importantes que definem o que é o Brasil.
O caso do banco Master, segundo fontes da jornalista Andréia Sadi, da GloboNews, tem potencial para “resetar a República”. O que essas fontes querem dizer é que o escândalo é tão grande que isso poderia significar ter de recomeçar do zero o ideal de República no Brasil.
Isso porque os maiores símbolos da lei — os ministros do STF, inabaláveis e intocáveis até então, aqueles que, em todos os escândalos políticos anteriores, se mantiveram “puros”, sem jamais se misturarem com a mediocridade da gentalha que deseja, consciente ou inconscientemente, afundar o país — simplesmente esculhambaram os princípios da ética e da moralidade legal republicana ao se envolverem indiretamente nos negócios de um banco suspeito ou fornecerem serviços para este banco a preços exorbitantes.
Esses ministros, cujas atividades são mais que suspeitas, foram incapazes de reconhecer sua suspeição e insistiram — até a última gota de sangue — em se manter à frente do maior processo de investigação dos últimos anos deste país, ridicularizando cada brasileiro, cada correntista do Master que foi lesado, cada pobre desta nação que assiste diariamente aos jornais noticiando milhões e milhões de reais sumirem inesperadamente como nos truques de David Copperfield.
Enquanto a Polícia Federal tenta manter de pé as suas operações de nomes criativos, os políticos tentam abafar tudo com a “operação pano de cuscuz”. Tudo isso porque o nosso sistema político tende a favorecer pessoas que se comportam como imperadores, que estão acima da lei, morando — curiosamente — em um lugar chamado República.

